quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Capitulo I (G)

Ao transpor a ombreira da porta do restaurante um arrepio apoderou-se do meu corpo, coeçando pelos pés, libertou-se na ponta dos cabelos e desapareceu. Lá fora a noite estava excelsa, apesar da diferença de temperatura a que rapidamente me habituei. Fui mais uma vez junto da praia, apreciar o extenso areal, agora praticamente deserta. Ao longe, alguém passeava pela orla das ondas em direcção ao rio das maçãs. O Sr. Júlio, semente e fazendeiro daquela terra, um velhote simpático que passava os dias a contemplar o mar e contar histórias, contara-me no outro dia a história daquela praia:
- Minha menina! - disse ele
- Contava o meu pai que certo dia, um temporal como não havia memória, arrastou das Quintas da Ribeira de Sintra as esbeltas macieiras que lá moravam, fazendo-as cair no rio. No dia seguinte, a praia estava coberta de maças, e assim ficou com o nome.
Naquele momento, a tranquilidade, a discreta maresia, o calor daquela noite de lua cheia que brilhava como um enorme foco impedia-me de recriar mentalmente o dilúvio que o Sr Júlio relatara. Inspirei fundo mais uma vez e subi a rampa da marginal em direcção à povoação vizinha onde me hospedara.
Acompanahada à esquerdapelo mar e à direita pelo vazio dos campos ou casas que iam surgindo, percorri quase inconscientemente todo o caminho até Azenhas do Mar, abstraida pelos estranhos acontecimentos do restaurante que entretanto me voltavam à memória.
A Carla não fora em nada modesta em relação à descrição que fizera daquela casa e que me convenceu a optar por aquele pequeno paraíso para palco destas merecidas férias: a cor branca e azul da fachada virada ao crepúsculo estabelecia uma simbiose com o mar que ficava a apenas alguns metros. O aroma dos canteiros da entrada e das jardineiras na varanda penetraram-me pelas narinas num gesto de acolhimento. As pesadas portadas de madeira imunham-lhe um tom rígido, mas o beje claro da sua cor enternecia o olhar num tom convidativo. A subida até ao topo do monte onde ficava a casa era difícil mas gratificante.
Dei duas voltas à chave e entrei. O interior era acolhedor e aconchegado, como as pessoas daquela terra, iluminado pelo luar que transpunha as persianas ainda abertas. Foi então que me apercebi do cansaço, como se uma pesada bigorna se impusesse sobre os meus ombros. O latejar da minha cabeça voltara, impedindo que o sono se apoderasse do meu corpo. Fui em direcção ao chuveiro para um banho rápido. Despi-me e liguei a torneira. A água fria corria-me pelos cabelos lisos em direcção aos seios, arrastando as gotículas de suor da caminada. Soube-me bem, como uma carícia que há muito desejava. Mas a dor continuava.
Liguei a TV na ânsia de e distrair, sem sucesso. A voz do jornalista em frente centro comercial Colombo soava distante. Mais atrás, o estádio de futebol rasgava o céu num vermelho vivo.
Finalmente, vencida pelo cansaço, arrastei-me para o quarto e precipitei-me sobre os cândidos lençóis de linho. A memória da jovem e a estranha frase invadiram-me subitamente a memória, no instante em que caí num sono profundo...

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